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APRENDIZAGEM MOLECULAR: NUNCA SE SABE COMO ALGUÉM APRENDE

Atualizado: 4 de jan.

A Esquizoanálise é uma Filosofia da Diferença, busca conhecer os seres a partir de suas diferenças infinitesimais ou moleculares. Assim, propõem uma concepção de inconsciente molecular, de Agenciamento molecular e de Aprendizagem Molecular. Como vimos no Post: “O SER E SEU DRAMA SEGUNDO DELEUZE”, molecular tem o sentido de pré-individual, ou seja, parte, pedaço, objeto parcial, referidos como pontos singulares que se constituem no ponto de partida da individualização do objeto, durante o seu processo de dramatização. Num exemplo escolar, para que a Aprendizagem Molecular escolar seja efetiva, nos primeiro anos, não se pode tratar a Alfabetização em seus aspectos molares, quer dizer, como uma totalidade já pronta, já realizada, aquela da leitura e do leitor. É preciso ir aos seus aspectos moleculares, aos fonemas, aos morfemas, e ligá-los aos grafemas, em atividades que favoreçam as conexões fonemas-grafemas. O alfabetizador experiente deve ter reconhecido aqui uma similaridade com o Método Fônico, mas cuidado, pois para Deleuze, como veremos abaixo, não há métodos para se aprender, recorrer a um método é dificultar e até impedir que o processo singular, pois Aprendizagem Molecular é sempre singular, se realize.

Assim, neste post trataremos do conceito de Aprendizagem para Gilles Deleuze, em três tópicos, I) A Aprendizagem Molecular como um Encontro com os signos; II) A Aprendizagem Molecular como elevação das faculdades mentais a sua potência máximas; e III) A diferenciação entre Aprendizagem Molecular e Saber. Em cada um destes aspectos são derivadas implicações pedagógicas importantíssimas para o processo de aprendizagem escolar.


I) Aprendizagem como um Encontro (Occursus) com os Signos


Gilles Deleuze, em “Diferença e Repetição”, apresenta uma concepção de Aprendizagem como processo, no qual se desenvolve um vínculo entre o aprendiz e aqueles aspectos que o toca em todo o conjunto de conhecimentos a que está sendo exposto. Estes aspectos são referidos como signos. Para ele, o mais importante não é o que o professor tenta ensinar, pois isto nem sempre é acessível ao aluno, mas aquela parte ou aspecto deste conhecimento que, de fato, toca, impressiona ou mobiliza, faz sentido, produz algum afeto ou afecção no aluno, pois só a partir destes é que se produz a aprendizagem. Por isso, esta Aprendizagem é dita Molecular.

Para Deleuze, a aprendizagem possui dois aspectos. Em primeiro lugar, a Aprendizagem é um Encontro com os signos, casual (Occursus), é conjugar “pontos notáveis” do corpo (ou da mente) de quem aprende com os “pontos singulares da Ideia objetiva” (os signos), aqueles aspectos ou partes do que se pretende ensinar que realmente tocam ou afetam o aluno. Esta conjunção se constitui como um “campo problemático”, ou seja, algo sempre por se fazer, por se resolver, cujas soluções não o encerram, já que novos aspectos problemáticos do campo surgem. É ao mesmo tempo que a conjunção se faz e que ela se constitui como campo problemático, ou seja, se a interação dos signos com pontos notáveis do aprendiz não se constitui como um problema, não existem condições para que um processo de aprendizagem molecular se inicie.

Um outro aspecto desta conjunção é que ela estabelece “um limiar de consciência”, ao nível do qual, os atos reais do aprendiz se ajustam às suas “percepções das correlações reais do objeto”, produzindo-se, então, uma solução do problema que originou a aprendizagem. Além disso, os pontos singulares da Ideia objetiva (os signos) são elementos a priori da Natureza e objeto subliminar de pequenas percepções. Sendo assim, “a aprendizagem passa sempre pelo inconsciente, passa-se sempre no inconsciente, estabelecendo, entre a natureza e o espírito, o liame de uma cumplicidade profunda”. Molecular em relação à Aprendizagem tem este sentido, de inconsciente, subliminar, infinitesimal.

Então, é por isto que Deleuze pode afirmar: nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender – que amores o tornam bom em latim, com quais encontros se é filósofo, em que dicionários se aprende a pensar. Ou seja, não existem métodos para se aprender, já que não se pode impor nenhum caminho necessário, nenhuma sequência ótima para que as conexões entre signo e pontos notáveis do corpo do aprendiz ocorram. Os métodos dificultam e podem até impedir que a aprendizagem ocorra, ao impor uma perspectiva em relação ao tema a ser aprendido que não é aquela da qual o aprendiz é capaz, ainda. E não há como chegar a esta perspectiva, pois, se ela se passa no inconsciente, nem mesmo o aprendiz pode conhecê-la. Ela só irá se revelar, aos poucos, na medida em que o processo de aprender estiver se efetuando.

A aprendizagem, em seu nível molecular, é sempre um acontecimento singular, criativo, inventivo, inovador, nunca jamais repetido. Pois, os pontos notáveis do aprendiz, que são sempre singularidades pré-individuais (pedaços, partes, objetos parciais etc.), se conjugam a pontos singulares, também pré-individuais (signos), daquilo com o que ele está em relação de aprendizagem, a Ideia objetiva, o que resulta numa composição que só pode ser, por sua vez, completamente singular, inventiva e inconsciente. Na Aprendizagem, tal como Deleuze a concebe, nunca há repetição do mesmo, o que repete é apenas o processo de aprender, mas a cada vez ele é outro, único. Daí afirmar que a repetição é repetição da Diferença. Apenas no pensamento e nas intenções do professor tradicional apegado a seus manuais, métodos e exercícios é que a repetição do mesmo existe.

O exemplo dado por Deleuze é o de como se aprende a nadar no mar. Partindo-se da concepção de que a ideia objetiva de mar compõem um sistema de relações diferenciais ou ligações entre partículas e singularidades correspondentes aos graus de variações destas relações, cujo conjunto encarna-se no movimento real das ondas. Aprender a nadar passa a consistir em conjugar pontos notáveis do corpo (cabeça, braços, tórax, pernas) com os pontos singulares da Ideia objetiva de mar (as ondas), produzindo-se uma sincronia de movimentos. Trata-se sempre de explorar os aspectos diferenciais da Ideia, os signos, para que se possa conjugar com eles pontos notáveis do aprendiz (do seu corpo ou de sua mente). Mas, tanto a exploração da Ideia objetiva quanto os ajustes dos pontos notáveis do corpo a ela, se fazem abaixo do limiar da consciência. Não se aprende, a não ser entrando no mar e deixando que sua mente e seu corpo vá pouco a pouco identificando e construindo as conexões psicomotoras necessárias e adequadas.

A despeito do exemplo, não são apenas os atos psicomotores que se aprende assim, mas este é o padrão de todo e qualquer processo de aprendizagem. Na Alfabetização, trata-se de favorecer a conexão de pontos singulares do corpo do alfabetizando (sua audição, seu cérebro e sua motricidade manual) com os signos auditivos dos nomes dos objetos que lhe são apresentados.  Tal conexão produz um campo problemático original e inusitado para o aluno, aquele de descobrir como se pode “desenhar” os nomes dos objetos, ou seja, desenhar palavras ou grafar fonemas, morfemas etc.

Assim, se engana quem atribui o sucesso ou fracasso na aprendizagem ao indivíduo, supondo que ele está no controle deste processo. Não é ele que aprende. Na maior parte do processo, ele nada sabe conscientemente do que se passa. O campo problemático e a conexão entre signos e partes notáveis de seu corpo se dão a nível inconsciente, depende de modificações e modulações, muitas delas cerebrais, formação de conexões neurais novas e inusitadas.

Se dar na forma de uma conjunção, para Deleuze, não é apenas o caso da aprendizagem. A aprendizagem é apenas um dos casos de conjunção. No Anti-Édipo, com Félix Guattari, ele irá generalizar tal conjunção denominando-a de “Máquina Desejante”. Posteriormente, em Mil Platôs, ela será chamada de “Agenciamento”. (Conferir, neste BLOG, o Post: “‘OUVIDORES DE VOZES’: SOMOS TODOS NÓS!”) Vemos então, que aprender é um caso particular de desejar. O Desejo é Agenciamento, inconsciente e pré-individual. O que quer dizer que ele se dá apenas entre singularidades pré-individuais (pedaços, partes, objetos parciais etc.), também referidos como “objetos parciais”. Não se trata pois de assumir um Desejo de Aprender, pois Aprender já é Desejo e nada mais.

A implicação educacional que se pode tirar daí, é que, se o professor espera e cobra do indivíduo-aluno o seu envolvimento, a sua responsabilidade pela aprendizagem, ele não a estará facilitando. Pois, estará colocando a ênfase numa totalidade individual já atualizada, a da pessoa ou do indivíduo, quando a aprendizagem para se iniciar precisa que se retorne à virtualidade dos objetos parciais, pois só eles podem participar de seu processo. Além disso, toda a preocupação com a relação entre o professor e o aluno, para Deleuze, só faz desviar também o foco do processo que nunca se passa entre eles.


II) Aprendizagem como elevação das faculdades mentais a sua potência máxima


Num segundo aspecto, a Aprendizagem consiste também no fato de que o aprendiz eleva cada uma de suas faculdades a sua potência máxima, ou o que Deleuze denomina o seu exercício transcendental. Neste sentido, de início, na sensibilidade, a primeira faculdade envolvida, este exercício procura fazer com que nasça “esta segunda potência que apreende o que só pode ser sentido”. A esta elevação da sensibilidade, denomina “educação dos sentidos”, para fazer referência à possibilidade de se extrair da sensibilidade a sua singularidade máxima, quer dizer, sentir aquilo que não pode ser identificado por nenhum tipo de “representação” ou “recognição”, reconhecimento de algo já sentido antes. Esta elevação das faculdades se torna indispensável para que novas conexões se formem na mente e no cérebro do aprendiz, assim como se fosse necessário “forçar” as faculdades mentais para que elas produzam as novidades indispensávei ao encontro das soluções para o campo problemático instaurado pela Aprendizagem Molecular.

A elevação da sensibilidade a sua potência máxima gera uma “violência” que é, então, comunicada às outras faculdades, a imaginação, a memória e o pensamento. Mas, sempre se conjugando com o Outro (o signo) no “incomparável” de cada uma das faculdades. Um exemplo dessa “violência” que se inicia na sensibilidade e se alastra, como o fogo, para as outras faculdades pode ser ilustrado pelo delírio. Delirar é elevar a sensibilidade a sua enésima potência, o que, automaticamente, se alastra por todas as outras faculdades, resultando até em delírios muito bem elaborados. Aprender, portanto, envolve níveis elevados de imaginação e fantasia que podem se aproximar daquele de um delírio, pois para o aprendiz, a novidade e a singularidade do processo que inicia em sua mente e cérebro é enorme. Isto fica evidente na impossibilidade de colocar em palavras os Acontecimentos que estão ocorrendo nele. Ele só consegue “maravilhar-se”, “miracular” tudo que está se passando, daí o seu encantamento, quase se pode dizer, o seu delírio, a sua alegria imensa.

Os dois aspectos da aprendizagem, citados até aqui, estão tão interligados que Deleuze pode afirmar: “dá na mesma explorar a Ideia e elevar cada uma das faculdades a seu exercício transcendental”. Sem esta ruptura, que mais tarde com Guattari, ela chamará de “desterritorialização”, a Aprendizagem não pode ocorrer. Para favorecer a Aprendizagem é preciso que o educador aceite este momento incomum, violento, até mesmo destrutivo de reconhecimentos anteriores, é preciso deixar os territórios antigos, confortáveis, para se aventurar em campos problemáticos. Só assim a Aprendizagem Molecular pode se dar.


III) Aprendizagem versus Saber


Diferentemente da Aprendizagem, temos o saber que se refere “apenas a generalidade do conceito ou a calma posse de uma regra das soluções”. Ao contrário da aprendizagem, permanece sempre no campo dos possíveis, das regras que nos levam às soluções possíveis. É apenas em relação ao saber, que se pode, então, falar em método.

Este saber, ou simples transmissão de conhecimentos, se faz por “recognição”, reconhecimento, baseado em representações. Na escola, ele consiste em se solicitar do aluno apenas que compreenda, quer dizer, aceite uma dada representação do real que já lhe é apresentada pronta, acabada, que memorize, fatos, datas ou conceitos. Pode-se dizer então, que se trata de uma “aprendizagem recognitiva” ou “por reconhecimento de conceitos dados”, que atua apenas sobre representações prontas. Ao contrário, a Aprendizagem Molecular como processualidade, defendida por Deleuze, será sempre uma “cognição inventiva”.

Mas, como recusar a atitude recognitiva? Iniciemos por pensar como se dá a recognição. Quando nos defrontamos com uma coisa-qualquer, evitemos dizer objeto, pois queremos nos referir a algo que não foi ainda objetificado, a alguma coisa que não sabemos ainda o que é; se conseguimos nos manter neste ponto de aproximação, seremos invadidos por uma multiplicidade de sensações paradoxais em relação àquilo que temos diante de nós. Um exemplo pode ser encontrado na contemplação de uma obra de um pintor surrealista, tal como Salvador Dali, diante dele é impossível ter um atitude recognitiva, todas as tentativas de concluir por um “objeto” fracassa, pois sempre falta algo para que ele possa ser reconhecido.

Se conseguirmos manter a recognição “suspensa”, de cada ponto de vista que nos referirmos à coisa-qualquer surgirão sensações em profusão, com violência, tal como se dá num caso de delírio. É esta violência da sensibilidade livre da recognição que Deleuze quer enfatizar. Cada perspectiva da coisa-qualquer, não objetificada, é ponto de origem de intensidades que se nos assaltam, nos afectam, nos tocam, nos impressionam, ou seja, criam em nós um campo problemático, disparam uma violência que é comunicada a todas as nossas faculdades. É assim que se inicia a Aprendizagem Molecular, que se eleva uma faculdade a seu exercício transcendental, sua potência máxima.

Na vida cotidiana, esta atitude é impraticável, sequer temos tempo de nos dar conta de sua possibilidade. Presos à utilidade de nossas ações, tão logo uma coisa-qualquer seja detectada por nós, imediatamente nossos sistemas mentais de decodificação já lhe atribuem um significado, resolve a multiplicidade virtual de intensidades, de afecções, num simples “ah, é isto...”, lhe dá uma utilidade, nos diz a ação possível de ser realizar com ele, realiza uma recognição, um reconhecimento.

A recognição consiste, portanto, numa seleção da multiplicidade de afecções disponíveis na coisa-qualquer, que separa, ordena, organiza, prioriza o contato com algumas poucas, apenas aquelas que se esquematizam com as categorias definidoras do objeto, segundo o senso comum e bom senso. Ela bloqueia aquela violência, a intensidade, que poderia ter sido disparada. Ela aproveita apenas uma parcela ínfima desta, afastando-a daquilo que ela pode. Daí, a expressão de Deleuze para o Saber, como recognição: “apenas a generalidade do conceito ou a calma posse de uma regra das soluções”. Em lugar do problema, do campo problemático, das intensidades e sua violência, apenas “a calma posse de uma regra das soluções”. Ora, não será por isto que uma autora, num livro dedicado à Psicologia Escolar pode intitular o seu texto como: “A Educação em tempos de tédio?” Pois, o que sobra para uma educação que, por medo da violência da Aprendizagem Molecular, da elevação da sensibilidade a uma potência superior, da produção de um campo problemático, opta pela calma posse das soluções já prontas? Até quando nossas escolas permanecerão neste marasmo entediante no qual nenhuma Aprendizagem Molecular pode ocorrer? Até quando vamos tolerar que aos aprendizes se apresente apenas o saber, o conhecimento de conceitos dados já prontos, as informações formatadas, os “fast-recognitions” educacionais? Nossos aprendizes necessitam de campos problemáticos, de signos que os toquem, os assustem, os assaltem, os levem a delirar!!! Assim é a Aprendizagem Molecular.


REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. Diferença e Repetição (Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado). Rio de Janeiro: Graal, 1988 [Ed. orig. 1968].




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