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INTOLERÂNCIA ASSASSINA: sua gênese na Imagem Dogmática do Pensamento

O Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil denuncia que durante o ano de 2022 ocorreram 273 mortes LGBT de forma violenta no país. Dessas mortes 228 foram assassinatos, 30 suicídios e 15 outras causas.” (Dossiê elaborado pela ONG “Observatório de Mortes e Violência LGBTI+ no Brasil”, acessível em: <https://observatoriomorteseviolenciaslgbtibrasil.org/dossie/mortes-lgbt-2022/>). Segundo os diversos observatórios deste tipo de violência, o Brasil é o primeiro colocado nos rankings internacionais.

A questão que fica diante destes dados estarrecedores é: por que tanta intolerância, tanta violência, tanto preconceito, fobia, racismo, fascismo? Mesmo com leis que criminalizam o preconceito e o racismo, com campanhas, com movimentos e ONGs batalhando para contê-los, as estatísticas não decrescem significativamente, apresentam apenas pequenas oscilações, muitas vezes seguidas de aumentos significativos (cf. Figura 2, abaixo). Daí, podermos denominá-la de Intolerância Assassina.

Gilles Deleuze (1988/1968), em Diferença e Repetição, dedicou todo o terceiro capítulo a um tema que nos oferece um caminho para refletirmos sobre a gênese dos preconceitos, racismos, intolerâncias e fascismo e porque são tão arraigados e tão difíceis de serem modificados, extirpados ou, pelo menos, flexibilizados. É disto que trataremos a seguir neste post.

O capítulo de Deleuze apresenta oito postulados do que ele denominou “Imagem Dogmática do Pensamento”. Em cada postulado, diferencia a “figura natural” (no sentido de "naturalizada" e não de biológica), aquela que o filósofo toma emprestado do senso comum, a partir da escolha arbitrária dos exemplos para suas exposições teóricas, e a “figura filosófica”, aquela que o filósofo constrói a partir dos conceitos que vai criando. Defendemos que a Imagem Dogmática do Pensamento seja considerada como a Matriz Cognitiva de toda forma de intolerância à diversidade, pois Deleuze criou tal conceito para nos mostrar como a Representação captura a Diferença e a mantém prisioneira nas garras da Identidade, do Oposição, da Analogia e da Semelhança, como veremos mais adiante.

Para Deleuze (1988/1968), o PRIMEIRO POSTULADO se refere ao Princípio implícito de que o pensamento está em afinidade com o verdadeiro, possui e quer o verdadeiro, tanto formalmente quanto materialmente. Este pressuposto implícito se origina do senso comum, corresponde a dizer que há uma boa vontade no pensador, constituindo assim sua figura natural. Em relação à figura filosófica deste postulado, Deleuze (1988/1068) se refere aos esforços dos filósofos, de vários matizes, no sentido de acrescentar-lhes traços provenientes da reflexão explícita sobre o conceito, que buscam uma reação à Imagem Dogmática do Pensamento ou mesmo sua subversão. Mas, uma vez assumida, ela permanece implícita, a contaminar todo o pensamento filosófico, ainda que este crie regras e métodos para corrigir, para dificultar sua influência, propondo uma natureza reta, com critérios de verificação de suas condições de verdade. O resultado disto é o estabelecimento de uma suposta natureza reta do pensamento, mas sem questionar a figura naturalizada, de que o pensamento, conforme ilustram os exemplos do senso comum, está sempre em contato com o verdadeiro. Ao se questionar sobre a necessidade deste princípio, supostamente desnecessário a uma Filosofia que se quisesse superior ao pensamento de senso comum, Deleuze só encontra respostas nas crítica à Moral realizadas por Nietzsche sobre o quanto esta Imagem de Pensamento serve bem aos interesses morais, de dominação e de controle na sociedade humana.

A propósito do SEGUNDO POSTULADO, que busca explicitar o Ideal da Imagem Dogmática do Pensamento, Deleuze (1988/1968), em relação à sua figura natural, se refere a que o Senso Comum se torna a norma de identidade, tanto do ponto de vista de um Eu, como da forma do objeto qualquer a ele correspondente. Para justificar tal afirmação, invoca a recognição, ou reconhecimento cognitivo, que se define pelo uso concordante de todas as faculdades (sensação, memória, imaginação e pensamento) em relação a um objeto que se supõe como sendo o mesmo. Assim, este objeto qualquer é visto, lembrado, imaginado, pensado como o mesmo, ainda que cada faculdade tenha os seus dados particulares sobre ele, seu estilo e seus atos particulares em relação ao dado. A identidade do objeto só é possível devido a esta concordância das faculdades. Em outras palavras, o reconhecimento de um objeto, tal como nos é confirmado pelo senso comum, reafirma a sua identidade, que só pode ser reconhecida por um eu também identitário. independentemente das perspectivas que cada faculdade possa assumir em relação a ele. A figura filosófica deste postulado resultará das reflexões explícitas desenvolvidas pelo filósofo no sentido de justificar o bom senso como a norma da partilha ou repartição que garante a concórdia das faculdades do senso comum que resulta na produção da identidade do objeto. O bom senso seria assim o responsável por qualificar o objeto segundo as diferentes perspectivas de cada faculdade, mas que só pode ocorrer supondo uma concordância entre elas na produção de um objeto supostamente o mesmo. Em toda a produção teórica de Deleuze, o combate à valorização da identidade, seja no objeto como no sujeito, se mostrará como o caminho para se evitar a Imagem Dogmática do Pensamento.

Tendo explicitado o Princípio e o Ideal da Imagem Dogmática do Pensamento, trata-se de buscar o seu Modelo, em seu TERCEIRO POSTULADO. Deleuze já antecipara sua definição da Recognição ou reconhecimento: “exercício concordante de todas as faculdades sobre um objeto suposto como sendo o mesmo: é o mesmo objeto que pode ser visto, tocado, lembrado, imaginado, concebido...” (1998/1968, p. 194). Mas, Deleuze lembra que a recognição não pode ser descartada na vida cotidiana, ocupa grande parte, senão a quase totalidade das situações em que se considera estar pensando: isto é uma mesa, é um computador, este sou eu etc. O que ele critica nesta Imagem é “ter fundado seu suposto direito na extrapolação de certos fatos, e fatos particularmente insignificantes, a banalidade cotidiana em pessoa” (p. 197), veja-se, como exemplo, diferenciar as pessoas pela cor da pele, criando categorias identitárias para isso. Assim, se estabelece a figura naturalizada deste postulado. Quanto à sua figura filosófica,, a recognição se apresenta como insignificante apenas como modelo especulativo, se mostra muito eficiente para os fins a que ela serve ou ao que ela nos leva, pois o que se reconhece como objeto são também todos os valores morais e estéticos que a ele são atribuídos. É desta forma que, mais uma vez, a Imagem Dogmática do Pensamento cumpre sua função moral, ao dar “testemunho de uma inquietante complacência” (p. 197) e, a par de sua utilidade na vida cotidiana, será generalizada para situações nas quais está em jogo as relações entre as pessoas, num serviço renovado à Moral. Portanto, para que se possa questionar a intolerância à diversidade ditos é preciso partir do questionamento de nosso modelo ou imagem de pensamento que se assenta sobre o simples reconhecimento do que as coisas são, sem duvidar que se está pressupondo conceitos representativos assumidos de forma arbitrária, ainda que úteis nas circunstâncias em que são criados, mas sobrecarregados por valores moralizantes e estéticos.

Qual seria o Elemento da Imagem Dogmática do Pensamento? A resposta está no seu QUARTO POSTULADO que trata da Representação. A figura naturalizada corresponde ao primeiro aspecto de caracterização da Representação, a identidade do conceito qualquer como a forma do Mesmo no seu reconhecimento. Tal como a recognição, a representação é de grande utilidade na vida cotidiana e a crítica feita àquela, pelo uso especulativo na Filosofia, também se aplica a esta. A faculdade que atua na produção da representação, na identidade do objeto qualquer, decorre do pensamento recognitivo, aquele que ocorre cotidianamente em todas as circunstâncias em que se é requisitado a pensar. Daí ser possível dizer que comumente não pensamos, apenas reconhecemos objetos em suas identidades ou representações; apesar de variações aparentes, praticamos apenas recognições ou reconhecimentos. A figura filosófica da representação irá abrigar outros três aspectos: a oposição na determinação do conceito, que implica na comparação dos predicados possíveis com seus opostos, como na dialética hegeliana; a analogia no juízo, que incide sobre os mais elevados conceitos determináveis, como na Filosofia de Tomás de Aquino; e a semelhança na caracterização do objeto do conceito, em si mesmo ou em relação com outros objetos, como requisito de uma continuidade na percepção, faculdade responsável por determinar a semelhança na representação do objeto. Para Deleuze (1988/1968, p. 201-202), então se pode afirmar que o mundo da representação só consegue apreender a Diferença “por meio da recognição, da repartição, da reprodução, da semelhança, na medida em que elas alienam o prefixo RE nas simples generalidades”. Assim, ao se reconhecer o pensamento cotidiano como recognição, representação, senso comum e boa vontade de pensar, modelo, elemento, ideal e princípio de uma Imagem Dogmática, torna-se evidente que é preciso destruir o círculo vicioso da recognição ou simples reconhecimento, para que se possa gerar o ato de pensar no pensamento, pois reconhecer não e pensar. Esta ruptura do círculo vicioso da recognição também é indispensável para um pensamento que se queira não identitário e distante do preconceito e da intolerância, que Deleuze irá denominar de Pensamento Sem Imagem, entendendo-se por Imagem seu aspecto moral e dogmático, pensar sem ser dogmático e sem ser moralista, como num quadro de Salvador Dali ou de Picasso, num filme de Buñuel, de Fellini ou de Godard.

O QUINTO POSTULADO da Imagem Dogmática do Pensamento se refere ao “Negativo”, ou seja, aquilo que não está em acordo, não corresponde ao que tal imagem propõem. Para Deleuze (1988/1968, p. 214), a Imagem Dogmática só reconhece o Erro como o “negativo” ou a desventura do pensamento, reduz todas as possibilidades de desventuras a ele. Relacionando com os postulados anteriores, ao supor uma boa vontade do pensador e uma boa natureza do pensamento, como no primeiro postulado, o erro corresponderia a um engano deste, tomar o falso pelo verdadeiro. Em relação ao segundo postulado do ideal do senso comum, o erro não pode surgir do engano de apenas uma faculdade, mas do fato de pelo menos duas delas se enganarem, confundindo seus objetos. Em relação à recognição, ele corresponde a um falso reconhecimento. Quanto à representação, uma falsa repartição dos seus elementos. Neste sentido, “rende homenagem à ‘verdade”, na medida em que, não tendo forma, dá ao falso a forma do verdadeiro” (p. 215). E ainda, “ele é uma espécie de falha do bom senso sob a forma de um senso comum que permanece intacto, íntegro. Desse modo, ele confirma os postulados precedentes da imagem dogmática, tanto quanto deles deriva e deles dá uma demonstração por absurdo” (idem, ibidem). É assim que esta concepção do erro como o que pode ocorrer de mal ao pensamento se constitui na figura naturalizada deste postulado. Em sua figura filosófica, Deleuze (idem, p. 216) destaca que “a imagem dogmática de modo algum ignora que o pensamento tem outras desventuras além do erro, opróbios mais difíceis de serem vencidos, negativos bem mais difíceis de serem revelados. Ela não ignora que a loucura, a besteira, a maldade – horrível trindade que não se reduz ao mesmo – também não são redutíveis ao erro”. Elas “são consideradas como fatos de uma causalidade externa, fatos que põem em jogo forças, elas mesmas exteriores, capazes de, de fora, desviar a retidão do pensamento – e isto na medida em que não somos unicamente pensadores”. A despeito desta causalidade externa ao pensamento, tais forças são assimiladas ao erro, senão de fato, ao menos de direito, numa “redução da besteira, da maldade e da loucura à figura única do erro”. Portanto, considerar tudo que não é idêntico, segundo seus conceitos, como um “erro”, negar que diferenças e diversidades possam ter outras origens, advirem de Acontecimentos totalmente outros, é próprio daquele que não consegue sair da Imagem Dogmática do Pensamento, o fascista, o racista, o preconceituoso, o intolerante à diversidade.

Ao considerar o SEXTO POSTULADO da Imagem Dogmática do Pensamento, Deleuze (1988/1968) irá se referir à Forma Lógica da Proposição, que, na sua figura natural, remete o verdadeiro e o falso da proposição à relação de designação, que indica ou designa objetos aos quais o seu enunciado se aplica. O equívoco questionado aqui é assumir o verdadeiro ou falso de uma proposição apenas a partir de sua dimensão designação, mais grave ainda é reduzir o sentido à esta dimensão. Como afirma Deleuze, na proposição deve-se reconhecer a dimensão da designação, referente aos objetos que estão sendo indicados por ela; da significação, referente ao conceito e ao modo como ele se refere aos objetos compreendidos na representação; e a dimensão da expressão, que se refere ao sentido da proposição. As duas primeiras são consideradas dimensões empíricas, pois podem estar explícitas ou serem deduzidas a partir da própria proposição; enquanto a terceira, da expressão ou do sentido, deve ser considerada como implícita, transcendental, genética e diferencial, pois “nunca podemos formular ao mesmo tempo uma proposição e seu sentido, nunca podemos dizer o sentido daquilo que dizemos” (idem, p. 123). Sem poder recorrer ao não-sentido (no sense), o sexto postulado da Imagem Dogmática do Pensamento, em sua figura filosófica, se perde na afirmação do sentido como um duplo neutralizado da proposição ou na sua reduplicação indefinida. Por isso, Deleuze afirma que o sentido está no problema, entendido no seu significado mais amplo, como o complexo que inclui o conjunto de problemas e de questões; é em relação a este complexo que as proposições irão servir de elementos de resposta e de casos de solução. Mas, adverte que é preciso deixar de decalcar os problemas e as questões sobre proposições que lhe correspondem e que lhes servem de soluções ou resposta, apontando que esta é uma ilusão da Imagem Dogmática do Pensamento. Pois, o sentido ou o problema é extra-proposicional, “difere, por natureza, de toda proposição” (idem, ibidem). Além disso, ao se agir assim, perde-se o essencial a gênese do ato de pensar, o uso das faculdades em seu exercício transcendental, que só ocorre quando o problema se coloca em sua forma original, como sentido. Este postulado trata da centralidade do problema, gerador do sentido, diferenciador das soluções. Daí, pensar é colocar-se problemas é ocupar-se de problemas, jamais contentar-se em encontrar soluções para problemas que nos colocam.

O SÉTIMO POSTULADO se ocupará da Modalidade das Soluções assumidas pela Imagem Dogmática do Pensamento, que em sua figura naturalizada, admite que o pensamento se desenvolve na busca das soluções ou resposta aos problemas, seja na escola, com os professores apresentando problemas ou questões aos alunos na expectativa de fazê-los pensar; seja no mestre, colocando problemas que façam o discípulo pensar. O que não se percebe é que, em todas as situações, as respostas já estão previstas no problema, e que o aluno ou discípulo apenas precisa descobrir o meio de chegar àquilo que o professor ou mestre já sabe. Deleuze (idem, p. 228, itálico do autor, negritos nossos) afirma: “como se não continuássemos escravos enquanto não dispusermos dos próprios problemas, de uma participação nos problemas, de um direito aos problemas, de uma gestão dos problemas. É o destino da Imagem Dogmática do Pensamento apoiar-se sempre em exemplos psicologicamente pueris, social reacionários (...) para prejulgar o que deveria ser o mais elevado no pensamento, isto é, a gênese do ato de pensar e o sentido do verdadeiro e do falso”. Ou seja, que se deve considerar que o verdadeiro e o falso devem ser levados ao problema, há falsos problemas, problemas mal colocados, problemas inexistentes. Recorda que há propostas pedagógicas baseadas em problemas, que reconhecem a importância deles, mas, o que as limita é a suposição de que eles desaparecem tão logo se chega a uma resposta ou solução, as quais passam a assumir uma importância maior que eles. A figura filosófica deste postulado consiste num prolongamento da figura natural, “reconhece-se a exigência crítica, esforça-se por levar a prova do verdadeiro e do falso até os problemas, mas mantém-se a ideia de que a verdade de um problema reside tão-somente em sua possibilidade de receber uma solução” (idem, p. 229). Deleuze aponta então que assim se perde a característica interna do problema como tal, “os problemas são provas e seleções. O essencial é que, no seio dos problemas, faz-se uma gênese da verdade, uma produção do verdadeiro no pensamento. O problema é o elemento diferencial no pensamento, o elemento genético no verdadeiro” (idem, p. 232, negritos nossos). Mas, para isto, é preciso “renunciar a copiar os problemas sobre proposições possíveis e a definir a verdade dos problemas pelas possibilidades de eles receberem uma solução. É a “resolubilidade”, ao contrário, que deve depender de uma característica interna: deve ser determinada pelas condições do problema, ao mesmo tempo que as soluções reais devem ser engendradas pelo e no problema” (idem, p. 233). O fascista, racista, preconceituoso, intolerante à diversidade nunca se coloca problemas, apenas se contenta em achar respostas para os problemas que outros lhes colocam, em geral seus mestres ou preceptores. Colocar-se problemas elevar-se à gênese das ideias, é pensar verdadeiramente.

O OITAVO POSTULADO da Imagem Dogmática do Pensamento se manifesta no seu Resultado, o Saber, que “designa apenas a generalidade do conceito ou a calma posse de uma regra de soluções” ou “uma figura empírica, simples resultado que cai e torna a cair na experiência” (idem, p. 236-239). Submeter a Aprendizagem ao Saber é a figura naturalizada deste postulado. Aprender, segundo esta figura, consiste apenas em adquirir conhecimento, isto é, saber, mediado por conceito, construídos a partir da representação e tendo na recognição o exercício desta aprendizagem. No cotidiano, na Escola, na Educação em geral, aprender é sempre adquirir conceitos, conhecimentos, informações, com seus intermináveis exercícios de memorização e compreensão de conceitos. Como vimos no Post anterior: "APRENDIZAGEM MOLECULAR: NUNCA SE SABE COMO ALGUÉM APRENDE", deste Blog, contrário a esta figura, Deleuze defende que aprender consiste em explorar a Ideia e em elevar cada uma das faculdades a seu exercício transcendente. “Os problemas e suas simbólicas estão em relação com os signos. São os signos que ‘dão problemas’ e que se desenvolvem num campo simbólico. (...) Aprender é “penetrar no universal das relações que constituem a Ideia e nas singularidades que lhes correspondem” (no Post citado apresentamos exemplos e explicações mais detalhadas desta concepção). A figura filosófica deste postulado consiste em submeter o método à cultura, entendida como cultivo ou formação. Para Deleuze, “o método é o meio de saber quem regula a colaboração de todas as faculdades; portanto é a manifestação de um senso comum, pressupondo uma boa vontade como uma ‘decisão premeditada’ do pensador. Mas, a cultura é o movimento de aprender, a aventura do involuntário, encadeando uma sensibilidade, uma memória, depois um pensamento, com todas as violências e crueldades necessárias, dizia Nietzsche, justamente para se produzir "um povo de pensadores". Nossas escolas com seus ideais de Saber, acúmulo de conhecimento e informação, afastando nossas crianças das condições da aprendizagem como produção de campos problemáticos, precisam ser reconhecidas como as responsáveis maiores pela produção, manutenção e defesa da Imagem Dogmática do Pensamento, princípio e gênese do preconceito, discriminação e intolerância à diversidade.

Sem querermos reduzir o problema da intolerância à diversidade à questões cognitivas apenas, mas mostrar que sua gênese depende da produção e supervalorização da Imagem Dogmática do Pensamento, defendemos que qualquer ação no sentido de, pelo menos, fazer decrescer as estatísticas tão perversas citadas nos parágrafos iniciais deste post, têm que considerar este aspecto, por alguns referido como preconceito ou racismo "estrutural".

Para Gilles Deleuze, é preciso urgentemente combater a Imagem Dogmática do Pensamento naquilo que ela tem de perverso, sua generalidade implícita, oculta, negada, moralista, quebrar o círculo vicioso da recognição, pois é evidente que a representação e a recognição são úteis para as atividades de vida cotidiana, especialmente quando se referem ao trato com objetos e coisas com os quais nos envolvemos em nossas rotinas, mas que não se pode estende-las ao uso com as pessoas, em nossas relações sociais. Assim como é impossível produzir Arte, criar ou inventar sem sair dela, sem questioná-la.

A nós pais, educadores e psicoterapeutas cabe um desafio urgente e importantíssimo, não podemos deixar o combate ao fascismo, racismo, preconceito e intolerância à diversidade apenas aos políticos de plantão, eles também, muitas vezes, prisioneiros da mesma Imagem Dogmática do Pensamento, até mesmo aqueles cuja "tonalidade" de suas convicções sejam um pouco mais "avermelhadas".


REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. Diferença e Repetição (Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado). Rio de Janeiro: Graal, 1988 [Ed. orig. 1968].



Dados obtidos por três Observatórios de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil em 2022.
Evolução no número de mortes violentas de LGBTI+ no Brasil, ente 2000 e 2022

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